Sinfonia é uma obra musical independente, executada por orquestra de corda e de instrumentos de sopro e percussão, desenvolvida geralmente em quatro movimentos, o primeiro dos quais construído como forma sonata. A sinfonia moderna é, na verdade, uma grande sonata para orquestra.

Genero musical criado por volta de 1750, a sinfonia teve muitos grandes cultores, como Haydn, Mozart, Schubert, Mendelssohn, Schumann, Brahms, Franck, Tchaikovski, Dvorak, Bruchner, Mahler, Berlioz, Liszt, Sibelius, Prokofiev, Stravinski e outros. Sobre estes mestres, paira a figura gigantesca de Beethoven, o maior compositor sinfônico de todos os tempos e uma das personalidades mais poderosas de toda a história das artes.

Beethoven legou à humanidade 9 sinfonias que atravessam os anos sem sinais de desgaste, como obras de supremo e permanente valor artístico. A influência de Beethoven sobre compositores do século XIX e mesmo XX, foi avassaladora e o fascício de sua obra extrapola o domínio da música para manifestar-se, até hoje, em vários campos da criação artística.

Em 1981, o pintor Walter Miranda convidou alguns
artistas plásticos a criar obras referenciadas ou inspiradas nas nove sinfonias de Beethoven. Quase três anos depois, ele próprio, Maria Bertoldi e Roberto Giannecchini (GIA) mostram o resultado desta experiência que os empolgou. Durante o desenvolvimento da série, convencionaram que, além dos nove trabalhos básicos, cada um produziria mais três, dando sequência livre ao processo criativo.

Personalidades de formação, informação e temperamento diferentes, cada um criou dentro de sua linha e os resultados são mais que satisfatórios: eles colocam problemas fundamentais da criação artística e se aproximam da metalinguagem da crítica, na medida em que criam obras referenciadas em outras obras de arte. Suas posturas criativas assemelham-se às vezes a certos comportamentos do próprio Beethoven, cujo posicionamento profundamente intelectual transforma alguma de suas obras ou parte delas antes em visões espiritualizadas da vida do que em projeções diretas do seu fluir.

WALTER MIRANDA projetou nos trabalhos que realizou sobre papelão sua própria personalidade, rica e complexa. E o fez, ao mesmo tempo, de forma racional e apaixonada. Uma personalidade atenta aos progressos significativos do conhecimento e, aos desatinos praticados por segmentos da sociedade em nome de ideais duvidosos, profundamente preocupada com os problemas sociais e o destino do homem na terra. No conjunto de sua obra, sente-se que fica uma mensagem de esperança.

MARIA BERTOLDI deixou-se impregnar pelo componente romântico que coexiste com o sentimento trágico no conjunto das sinfonias de Beethoven. Plasmou a vida que se respira nestes poemas sinfônicos mediante representações da paisagem urbana que se vê das janelas de sua casa-ateliê, no bairro de Água Fria, em São Paulo. Trabalhou mais na linha poética da Sétima Sinfonia do que na vertente trágica da Sinfonia do Destino, a Quinta.

GIA construiu uma obra belíssima utilizando em suas esculturas-objetos perfís de alumínio fosqueado e sucatas de computadores, a elas incorporando elementos fornecidos pela tecnologia moderna como lâmpadas fluorescentes, fibras óticas rígidas, fios de poliuretano, pequenos motores e temporizadores. Algumas peças são fixas, outras se movem. A Sexta Sinfonia - A Pastoral - foi exemplarmente sintetizada na figura de um pássaro de alumínio que "voa" suavemente, movida por um motor de 18 watz provido de um sistema de ressonância mecânica, acionado por um temporizador.

O conjunto dos trabalhos apresentados pelos três artistas tem a marca de sua origem Beethoveniana: o espírito de fé na arte e na vida que ela reflete. É como se eles repetissem, em outras linguagens, os versos da ODE À ALEGRIA, de Schiller, no final da Nona Sinfonia:
                              "MULTIDÕES, CHEIO DE AMOR EU VOS ABRAÇO,
                                AO MUNDO INTEIRO ENVIO ESTE BEIJO..." 

São Paulo, Natal de 1984

Enock Sacramento
Membro da Associação Brasileira dos Críticos de Arte

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