| Venho
analisando atentamente as obras do artista plástico Walter Miranda
no decorrer de sua dinâmica carreira. Nela vê-se uma evolução crescente,
onde já estava latente o trabalho atual, nas obras mais antigas.
Em uma breve análise, nota-se que a temática social e humanista sempre
foi constante. O uso de colagens vem de 1977; as silhuetas,
bem como seu estilo de pintura "espirrada" surgem em 1981. A inserção
de objetos, como no seu trabalho sobre a Guerra das Malvinas, no qual o quadro passa a ser tridimensional, surge
em 1982.
Em 1983, inicia o trabalho de alto e baixo-relevo e a composição geométrica,
onde cada parte se relaciona com as demais, que por si só são independentes.
Também em 1983, na série 1984, o estigma de George Orwell,
além da crítica da política econômica brasileira quando estiliza as
figuras humanas (que ficam parecidas com robôs), já se antevê sua
futura discussão sobre a massificação humana em grande escala.
Nas obras da série sobre Beethoven, podem ser vistas as fusões destes vários estilos
de representação artística junto com trabalho de pintura abstrata
e pesquisa de cores. Cada vez mais os temas de caráter universal tomam
lugar em suas obras, como a massificação do povo, a fome, a injustiça,
etc.
Em 1986, inicia a longa série Admirável Mundo
Novo, onde os temas sociais e ideológicos juntam-se à questão
da ecologia global. Com o trabalho mais abstrato, com a composição
construtivista e sem perder o figurativo, trabalha os temas de uma
maneira mais subjetiva, permitindo que o espectador chegue a conclusões
próprias. Nesta fase surge também o uso de peças de computador e,
profundamente influenciado por seus estudos sobre matemática e física,
usa a relação áurea como ferramenta básica de suas composições.
Em 1989, começa a utilizar animais encontrados mortos. Em 1991 inova
ao usar chapa
de ferro perfurada como suporte. Percebe-se uma constante procura
por suportes heterodoxos que variam desde a própria fabricação de
papelão, até o uso de chapas de ferro ou de placas de computador.
Nos seus trabalhos de 1992, propõe, de uma maneira sutil, porém enfática,
a busca do equilíbrio humano com a tecnologia, através da representação
de bailarinos.
O trabalho sobre o chefe indígena Seattle, Projeto Seattle - Exaltação a Gaia
- de 1996, é uma síntese bem clara de uma carreira artística e de
uma busca constante pela justiça, pela coerência de atitudes. É uma
visão que nos mostra humildade perante a mãe Terra - Gaia, presente
em todos os quadros da série. O homem é questionado sobre a incoerência
de seu desenvolvimento desestruturado que criou sua desintegração
com a natureza. Sempre trabalhado de maneira clara e limpa, meticulosamente
composto e rico em detalhes, o tema é desenvolvido em cada quadro
através do fracionamento racional de retângulos com subtemas. O uso
da espiral logarítmica une os subtemas com sua linha orgânica contrapondo-se
à rigidez matemática dos retângulos áureos. Inovando, como sempre,
e atualizado com seu tempo, Walter começa a inserir em seus trabalhos
imagens digitalizadas, criadas e trabalhadas com grande domínio na
computação gráfica. Nestes trabalhos inicia o uso mais intenso de
cores e a pesquisa de texturas, dando mais vitalidade ao tema, que
trata da ecologia mundial, sem nunca perder a oportunidade de questionar
a atitude humana frente aos problemas sociais, ideológicos e tecnológicos,
como também de buscar de soluções para o retorno ao equilíbrio global.
Em 1998, na série Admirável Nova Idade Média,
explora as analogias atemporais do mundo às portas do século XXI com
a Idade Média. Contrapõe de maneira irônica e dramática o mundo altamente
tecnológico que ainda não conseguiu se desvencilhar da qualidade de
(sub)vida da Idade Média. Walter, ao mostrar as similaridades do nosso
tempo com o passado, faz crítica social, econômica, ecológica, tecnológica
e sobretudo filosófica. A série Admirável Nova Idade Média é um bom exercício de
reflexão contemporânea sobre a qualidade (virtual, talvez) da vida
moderna. Esses questionamentos surgem nos quadros através da abordagem
de situações opostas, imagens novas e antigas sobre os diferentes
assuntos em que se assemelham as duas eras. O artista prossegue seu
debate das questões humanas e sociais. Continua também sua pesquisa
pictórica de composição, cor, textura, inserção de objetos e imagens
digitalizadas. O contraponto também ocorre em suas obras quando usa
a tradicional técnica da pintura a óleo aliada às técnicas contemporâneas
de interferências tridimensionais e de imagens trabalhadas no computador.
O artista plástico e o artista eletrônico coexistem no mesmo plano,
que é bi e tridimensional simultaneamente.
Já na série Admirável Novo
Milênio de 1999, aborda questões filosóficas, científicas, ambientais,
religiosas, místicas, etc., referentes à situação humana neste início
de terceiro milênio, através da utilização de pintura a óleo e da
virtual computação gráfica, sempre
aliadas à incorporação de objetos representativos do momento tecnológico
atual (placas de computador, disquetes), elementos naturais (folhas
e sementes de plantas) e objetos do cotidiano (jóias, selos, etc.).
Nessa série, Walter dá mais um salto inovador em seu desenvolvimento
artístico ao utilizar apenas recursos da computação gráfica para criar
alguns quadros inteiramente virtuais que efetivamente só existem na
forma digital (mesmo sendo possível sua impressão), levantando a questão
para o observador sobre o que é virtual e o que é real. A polêmica
dessa vez é sobre o quanto somos iludidos pelos sentidos, já que a
sutil diferença entre o real e o virtual começa a se imiscuir em várias
outras situações da vida moderna cotidiana, a ponto de haver sido
criada a expressão "realidade virtual".
Como se vê, seu trabalho prossegue agregando das obras anteriores
as discussões, polêmicas, reflexões e também as inserções de objetos
recorrentes somadas aos do novo contexto em debate. É um processo
cumulativo de idéias, ideais e técnicas, mas com objetivos em comum.
É como, se Walter tivesse a ânsia de adquirir e absorver todo o conhecimento
e experiência da humanidade para expressar através de sua obra a necessidade
do resgate da dignidade humana.
Nos trabalhos de 2001, Walter retoma o desenvolvimento da série Admirável
Nova Idade Média (revisitada) usando a criança como tema para efetuar
as comparações entre os dias de hoje e da Idade Média, prosseguindo
suas pesquisas e sua evolução técnica do uso do computador apenas
como mais uma ferramenta de expressão artística e não como objeto
da Arte propriamente dita.
Um outro trabalho interessante de 2001 é o Livro de Gaia, composto de 3 placas de computador unidas formando
um livro. Cada placa é uma página, a primeira, a capa do livro, trata
do desenvolvimento do Homem da pré-história à Antigüidade, a segunda
trata do período da Antiguidade até a Revolução Industrial e a última
trata da fase da Revolução Industrial até os dias atuais. As placas
de computador tiveram seus componentes eletrônicos rearranjados para
melhor dispor os elementos figurativos na composição. Cada página
contém objetos e/ou imagens relacionados ao tema como: na capa - pedra
lascada, pinturas rupestres, trigo, escrita cuneiforme, eclipse solar;
na página dois - espirais matemáticas, figura humana por Da Vinci,
mapa mundi, peças mecânicas; na última página - cogumelo atômico,
urubus sobre um lixão, o relógio destruído pela bomba em Hiroshima,
buraco de ozônio. O próprio livro da Terra é um hardware de computação,
que tem a função, e ai está analogia, de armazenar e computar informações.
Walter levanta a questão sobre a função bioevolutiva do Homem ser
talvez um grande armazenador de informação e conhecimento, formando
toda a humanidade (o hardware) um ser único que contém toda a informação
(um grande banco de dados, software) suficiente para computar a sabedoria
em relação a si e ao planeta.
Os trabalhos de Walter são sempre instigantes e reflexivos. Tomam-nos
tempo pois precisamos observar atentamente a riqueza de informações
altamente intrincadas e relacionadas a questões sérias e profundas,
que nos trazem de volta a fruição de olhar horas a fio para uma obra.
Maio/2001
Flávia Venturoli Miranda |