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20 anos de carreira artística, Walter Miranda, sempre se ateve a questões
filosóficas e conceituais, tanto sociais quanto globais. Nesta nova
série denominada, PROJETO SEATTLE: EXALTAÇÃO A GAIA,
o artista usa como tema o planeta Terra, através da livre representação,
pictórica da carta resposta do chefe
indígena Seattle à proposta do presidente norte americano, Franklin
Pearce, para a compra de terras indígenas em troca de uma reserva
em 1.855. O texto é uma obra de grande beleza, poesia e filosofia,
que profetiza a situação de degradação ecológica da Terra, sendo uma
literatura ainda pertinente nos dias de hoje.
Gaia em grego, Terra em latim, era uma das divindades primordiais
da teogonia grega, após o caos. Dela principia tudo, desde suas forças
naturais que mitologicamente são representadas por seus filhos, até
criaturas que sobre ela vivem e dela dependem, animais e plantas.
Nesse sentido, o tema, Exaltação a Gaia, toma sentido quando percebemos
a presença da imagem do planeta em todas as obras expostas, em circunstâncias
conceitualmente distintas.
Walter produz composições construtivistas através do uso da Relação
Áurea, que é uma relação matemática observada em várias criações da
natureza e já encontrada nos estudos matemáticos dos povos da Antigüidade.
Ao mesmo tempo elimina a rigidez geométrica das composições criando
uma relação orgânica dos espaços através da espiral logarítmica. As
conjunções das linhas compositivas propiciam formas figurativas que
são integradas ao tema pelo artista de maneira estilizada ou realista.
Utilizando a tradicional técnica da pintura a óleo, obtém texturas
e efeitos visuais peculiares através de sobreposições de tinta em
camadas espirradas, enrugadas e/ou pinceladas abstratas que são aplicadas
tanto ao fundo quanto às figuras em alto relevo, que foram desenhadas
e recortadas em papelão e coladas nos quadros durante o processo da
composição.
Através da incorporação aos quadros de placas de circuito impresso
de computador (algumas vezes serradas e esmerilhadas para obter formas
geométricas e figurativas tais como locomotivas, arvoredos, figuras
humanas, etc.), chips, baterias e vários elementos do nosso cotidiano
tecnológico, além de elementos da natureza, como sementes, folhas,
terra, cinzas, etc., Walter, ilustra de maneira simbólica a dicotomia
atual de natureza versus uso inconseqüente da tecnologia, provocando
reflexões sobre a questão do meio ambiente, do papel do homem no planeta
e da responsabilidade sobre esta herança ecológica, como observamos
na obra onde ele incorpora um vidro com água pura (retirada da nascente
do Tietê) e outro com água poluída (retirada do mesmo Tietê, porém
dentro da cidade de São Paulo).
Além disso, repetindo algumas imagens como, por exemplo, a Terra,
as bailarinas, e crianças, entre outros elementos figurativos, o artista
cria um repertório que dá ênfase a um universo de significados que
não visa transmitir mensagens decodificadas ao espectador, já que
a utilização desses elementos como detalhes, obriga o espectador a
examinar as relações metonímicas de cada elemento provocando-lhe questionamentos,
para que ele tire suas próprias conclusões sobre o tema abordado.
O resultado é a cumplicidade ou a negação, pois ambas formam os dois
lados de uma moeda, ou seja, um tipo de envolvimento fechando, dessa
forma, o círculo.
O artista, portanto, procura unir a razão ao sentido, base de seu
processo criativo. O resultado é um trabalho totalmente novo que,
embora apoiado nas técnicas tradicionais, visa sua superação e transformação
e, por isso, tem raízes profundas na história, cultura e linguagem
artística (como observou Ferreira Gullar a respeito da poesia), onde
esse estilo é identificável pela concepção compositiva, sendo a técnica
(variável) seu mero instrumento. Como escreveu Kandinsky: "O artista
deve ter algo a dizer porque seu dever não é dominar a forma e sim,
adequá-la a um conteúdo".
Novembro/1998
Flávia Venturoli de Miranda |