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Este
quadro é uma homenagem à minha mãe, uma mulher
extremamente honrada e digna; que lutou muito para criar sozinha a
mim e ao meu irmão, Waldemir, e nos ensinou o sentido da palavra
honestidade praticando-a todos os dias. Decididamente ela foi uma
guerreira, uma leoa e uma mulher vencedora.
Os princípios e a base moral que ela ensinou a mim e ao Waldemir,
foram vividos por uma mulher de grande personalidade e é a
base de nosso caráter. Esta é a grande herança
que ela deixou para nós. Eu tenho muito orgulho de ter sido
filho dela. Ela cometeu erros e acertos como qualquer ser humano,
mas deixou o mundo um pouco melhor do que encontrou.
Esta certeza me enche de orgulho a ponto de me incentivar a pintar
este quadro e dividir minhas emoções com o mundo. Quero
dividir com todos esses momentos em que me senti muito próximo
de Deus. Aos interessados peço que leiam o texto abaixo.
SP,
19/12/2005. |
Minha
mãe vinha tendo sérios problemas de saúde desde
o ano passado, passando inclusive por algumas internações
hospitalares. Neste ano ela passou abril e junho hospitalizada, sendo
que os últimos quinze dias de sua vida ela passou na UTI.
Para quem não conheceu minha mãe, é preciso dizer
que estes foram momentos de intensa dor para ela, pois seu sofrimento
maior seria ficar imobilizada em uma cama. Ela sempre foi dinâmica,
trabalhadora e absolutamente independente. Tanto é assim que,
somente em maio, conseguimos convencê-la de que já não
lhe era mais possível viver sozinha e passamos a construir um
quarto para ela na casa de meu irmão.
No dia 09/07/2005, um sábado, às 12h 45min ela sofreu
uma parada cardíaca. Os médicos não conseguiram
reanimá-la e oficializaram sua morte às 12h 55min.
Fiquei sabendo da morte dela às 14h 30min quando fui visitá-la
e não a encontrei em sua cama. Ao sair procurando-a em outras
camas, os médicos perceberam minha movimentação
e me comunicaram o fato. Foi um choque porque eu ainda tinha esperanças
de vê-la sair do hospital e morar com meu irmão, embora
o caso de saúde dela fosse grave.
Depois de abafar meu choro telefonei para o meu irmão e fiquei
sabendo que, ao mesmo tempo em que os médicos me comunicavam
pessoalmente a morte, ele era comunicado por telefone pela administração
do hospital. Apenas uma daquelas coincidências da vida e da morte.
Em seguida, fui à administração do hospital para
saber como proceder burocraticamente, pois nunca havia tido uma morte
em minha família. Lá recebi as devidas orientações
e decidi ir à casa da minha mãe (próxima do hospital)
para buscar roupas para vesti-la.
Ao retornar para o hospital encontrei meu irmão e fomos ao necrotério
onde ficamos velando o corpo de nossa mãe.
Aqui começou acontecer uma série de situações
extremamente positivas que me fizeram pensar em escrever este texto: |
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Por mais de uma hora eu, meu irmão e minha mãe ficamos
sozinhos. O corpo dela ainda estava quente e ainda não apresentava
a famosa rigidez cadavérica. Aquela ainda era a nossa querida
Mamãe.
Para mim foi uma despedida tocante quando, enquanto chorávamos,
pudemos acariciá-la como nunca pudemos antes pois, para quem
não sabe, minha mãe não era dada a carinhos
e afagos.
Depois, decidimos trocá-la. Foi outro momento em que me senti
próximo de minha mãe como nunca. Aquela intimidade
era algo divino e sagrado onde eu me senti extremamente útil
na humildade de poder servi-la uma vez mais.
Ao sair do necrotério, havia um por do sol maravilhoso. No
horizonte havia uma faixa laranja mostrando que o calor da vida
estava se recolhendo. No alto do céu, a lua já visível,
começava a ficar crescente e Júpiter lhe fazia companhia
brilhando nítida e intensamente nas suas proximidades. Acho
que Júpiter com sua benevolência já estava me
avisando há alguns dias, pois ele aparecia muito grande e
brilhante no céu das últimas tardes e eu ficava admirando-o
naqueles começos de noites.
Após observarmos esses fenômenos naturais, fomos à
funerária tratar da escolha do caixão, velório,
cemitério, pagamentos, etc. Lá encontramos uma funcionária
muito alegre que nos proporcionou momentos muito engraçados,
como quando entrou em um caixão para ver se minha mãe
caberia nele, já que seu corpo era do mesmo tamanho que o
da minha mãe. Após muitas risadas e escolhas, decidimos
que o velório seria curto, somente das 9 às 11hs da
manhã seguinte, domingo.
Depois voltamos ao hospital para esperar o carro da funerária
que transportaria o corpo de nossa mãe até o cemitério
de Itaquera. No hospital, encontrei com a Flávia, minha esposa,
e acompanhamos o corpo até o cemitério. Lá
outra situação curiosa ocorreu:
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- Minha
mãe sempre gostou de cachorros, chegou a ter quatro simultaneamente.
Onde ela ia, brincava com os cães, mesmo que não os
conhecesse ou que fossem bravos. Ao chegarmos na administração
do cemitério uma pequena cachorra nos recebeu com muita alegria
e nos fez companhia o tempo todo. Meu irmão brincou com ela
durante muito tempo. Foi o melhor comitê de recepção
que minha mãe poderia ter tido e isto nos fez um bem emocional
enorme.
Esperamos terminar os preparativos, pedimos à administração
para fechar a porta da sala até a manhã seguinte e
nos despedimos daquela cachorra que nos recebera com muito carinho.
No domingo, eu, a Flávia e minha sogra chegamos ao cemitério
às 8h 15min. No mesmo horário meu irmão também
chegou. Estava uma manhã ensolarada e linda e o dia prometia
ser da alegria e não da tristeza.
Abrimos a porta da sala onde minha mãe estava, acendemos
as velas e demos inicio ao velório.
Minha cunhada trouxe um relógio que minha mãe gostava
muito e sua dentadura para colocarmos nela. Foi um momento extremamente
hilariante, diante da idéia absurda de colocarmos a dentadura
em minha mãe (coisa que não fizemos, claro). Após
a minha gargalhada debochada, que muitos conhecem, coloquei o relógio
nela e a dentadura dentro do caixão.
Rezamos e nos despedimos uma vez mais. Agora, já não
era a minha mãe. Era apenas um corpo gélido e duro
que lembrava ter sido a morada de minha mãe. Mas, apesar
disso, por diversas vezes observamos o seu semblante sereno como
se estivesse dormindo. Parecia que finalmente ela estava descansando.
Então, outra situação marcante aconteceu: Para
quem não sabe, minha mãe era evangélica. Eu,
como todos sabem, pecador confesso e descrente de religiões
(apesar de crer em Deus e Jesus).
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Curiosamente, meu depoimento abriu uma porta que eu não imaginava
pois, lá estavam presentes mais três pastores (alguns
de outra igreja) e eles fizeram depoimentos pessoais que mostraram
um lado muito bonito da minha mãe, da sua participação
social na comunidade organizando a montando cestas básicas
para a distribuição aos pobres e outras atividades destinadas
aos menos favorecidos.
Muitas risadas foram dadas durante esses depoimentos que lembravam
algumas das características da minha mãe, uma pessoa
de forte temperamento, de difícil convívio, que cobrava
a responsabilidade de todos, mas com uma índole positiva e
construtiva. Uma pessoa de realizações, que fazia, ao
invés de ficar apenas sonhando ou criticando.
Foi uma cerimônia de despedida que eu jamais imaginaria pudesse
acontecer com minha mãe, uma pessoa amarga e sofrida. Para
minha grata surpresa ela, que nunca foi dada a festas, fez uma festa
de despedida alegre e descontraída que tornou aqueles momentos
leves e carinhosos. Senti esses efeitos positivos em meu coração
por vários dias e ainda os sinto quando lembro daqueles momentos.
Aquela não foi uma despedida triste, mas uma despedida com
muito amor. Naquelas doze horas, desde o necrotério até
o velório, ela deu a mim e ao meu irmão todo o amor
e carinho que ela não foi capaz de dar em vida. Para mim foi
uma lavação de alma, uma catarse, momentos de resolução
interior.
Passei o domingo todo tendo momentos seqüenciais e ininterruptos
de epifanias que, na somatória, eu só posso definir
como estado de graça. Paradoxalmente, aquele domingo ensolarado
foi um dia de alegria ao invés de tristeza. Minha mãe
havia partido mas o meu choro era o choro de quem se entristecia porque
uma companheira havia viajado para um mundo melhor, assim como choramos
quando nossos entes vão morar em outros países mas terão
uma vida melhor. Ela finalmente estava descansando e isso me bastava.
Eu não conseguia ter aquele choro egoísta, muito comum
quando se perde alguma coisa. Não, aquela tristeza que apertava
o meu coração servia apenas para me lembrar de que ela
estava mais perto de Deus e havia cumprido sua missão. Foram
momentos intensos, de gratas lembranças e amor sincero e desinteressado.
Estes momentos todos me deixaram uma influência tão forte
e positiva que afagaram e afagam meus momentos de saudade como se
minha mãe estivesse me acariciando.
Esta semana que passou foi o tempo da burocracia, de colocar as coisas
em ordem. Os momentos que meus compromissos me permitiram eu usei
remexendo e ordenando seus documentos, fotos, pertences, etc. Quem
já passou por isso sabe do que estou falando. Cada pequeno
detalhe revela partes de uma vida ou reforça a impressão
que temos do caráter daquela pessoa. Também há
a sensação surreal pela qual o nosso cérebro
passa ao enfrentar o jogo de lógica e emoção
(pelo qual todos passam) onde eu sei que nunca mais a verei mas o
meu emocional se recusa a aceitar essa realidade tão simples
e inexorável. É um jogo que nos deixa levemente atordoados
mas, em meio a esses percalços, a sensação que
me vem é a de ternura. Não é o sentimento de
perda mas de conforto; não é o sentimento de revolta,
mas de agradecimento.
É como se minha mãe tivesse guardado todo o seu amor
para me dar no dia de sua despedida final. É como se eu houvesse
ganho um presente que perdurará para sempre.
Ainda hoje, passo o dia todo pensando nela, lembrando de passagens
boas e ruins que tivemos. Não tenho deixado de fazer nada no
meu dia a dia mas a presença dela é constante, não
como uma sombra, mas como uma companhia boa e protetora.
Eu sei que nos próximos dias e meses vou chorar de saudades
(um grande amigo me disse que passou alguns anos vivendo momentos
onde chorava a ausência da mãe), mas também sei
que não será o choro amargo daqueles que não
conseguem ver o lado bom da vida.
Pensando nos dois dias de despedida que minha mãe me proporcionou,
concluo que Deus foi muito generoso comigo e com meu irmão
e a prova é a sensação de bem estar que ainda
me acompanha ao lembrar de minha querida Mamãe (sim, com M
maiúsculo).
Tenho certeza que é esta sensação que me acompanhará
pelo resto da vida. É verdade que eu sinto uma pequena tristeza
em meu coração, mas também sinto uma sensação
positiva me dizendo que do convívio com ela, por mais de 50
anos, a palavra que permanece é: Valeu!
Um
abraço a todos,
SP 17/07/2005
Walter Miranda |