| Corria
a terça-feira normalmente e eu seguia dando aula de desenho
e pintura em meu ateliê. Após a aula, subi para almoçar
e resolvi ligar a televisão para ver o noticiário. Na
tela era exibida uma cena com efeitos especiais onde uma das torres
do World Trade Center era implodida. Alguns minutos se passaram até
eu entender que estava assistindo, ao vivo, a queda da segunda torre.
Naquele momento a estupefação e a incredulidade se apossaram
de mim e comigo ficaram por alguns dias. Na verdade me senti meio
zumbi durante uns dois dias. Era como se eu estivesse fora da realidade
e, por isso, andava tateando à procura dos meus sentidos.
O fato é que Nova Iorque me cativou desde a primeira vez que
coloquei o meu rosto em seu colo. Para mim, ela é uma extensão
de São Paulo, pois assim como a nossa megalópole, ela
está sempre de braços abertos recebendo pessoas de todos
os rincões (pelo menos estava). Entretanto, ela é uma
São Paulo melhorada e a grande diferença está
na qualidade de vida e no respeito para com a cidade. Você percebe
dignidade nos seres que perambulam pelas ruas e isso faz com que você
se sinta cúmplice do ambiente urbano e se sinta em casa.
Essa intimidade entre eu e a “Big Apple” sempre me foi aconchegante.
Mesmo estando distante e demorando para revê-la, sempre me senti
ao lado dela. Por isso, quando percebi o que estava acontecendo, somente
as lágrimas que escorriam de meus olhos poderiam expressar
a minha angústia e, dessa forma, somente o silêncio poderia
fazer companhia às minhas lágrimas. E assim foi por
alguns dias.
Foi uma ferida de difícil cicatrização e quando
momentos de angustia ou tristeza me ocorrem, eu pinto. Nesses momentos,
a elaboração de uma estratégia lógica,
estética e compositiva é a ferramenta que eu uso para
transmitir as minhas emoções em meus quadros.
Dessa forma, usei dois quadros para demonstrar dois momentos da “Big
Apple”. No primeiro, representei a cidade antes do atentado por meio
de uma pintura a óleo e uma aquarela, bem como usando as costumeiras
placas de computador, além de incluir uma foto tirada por satélite
das duas torres.
No segundo
quadro, representei a cidade, depois do atentado, por meio de
uma aquarela que mostra dois fachos de luz onde estavam as torres,
o metrô com fotos reais de pessoas que morreram no incidente,
os detritos de onde surgem as cores do espectro solar (como um sinal
de esperança), os celulares que foram de grande importância
para as despedidas das pessoas que estavam presas nos prédios
e seus familiares, uma menção ao corpo de bombeiros,
uma foto de satélite após o incidente, etc.
Bom, esta é a síntese, o resto é para livre interpretação.
abril/2003
Walter Miranda
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