Walter Miranda
Artista Plástico

1984 - Estigma de George Orwell

1984
de Walter Miranda  Dezembro/1984

  Existem muitas teses sobre as intenções de George Orwell ao escrever o livro "1984". Talvez identificasse Londres e o trabalhismo em 1948 após a guerra. Talvez representasse o comunismo, o fascismo, o nazismo ou, quem sabe, estivesse até mesmo fazendo uma previsão. A meu ver estas teses são irrelevantes diante dos problemas abordados por ele, os quais vivemos concretamente através das perversões do poder (hoje e em qualquer época). 0 título, inclusive, poderia ser 1964 ou 1999, pois mais que uma previsão, a temática é uma constatação, já que, a meu ver,  alguns dos assuntos abordados no livro comprovam minha opinião, a saber:

  • controle do indivíduo,
  • invasão da privacidade individual,
  • anulação da memória de povos,
  • mudança de significado das palavras,
  • transformação de pessoas em não seres.

Em função dessas constatações, resolvi fazer uma analogia da obra de Orwell com a sociedade atual, numa série de quadros que mostra a inércia da sociedade que se permite manipular pelos detentores do poder através da força. Nesta analogia, pinto as pessoas com os rostos facetados, para mostrar a robotização do ser humano, que não questiona as imposições dos sistemas político/econômicos e, por isso, são responsáveis indiretos pelas inconseqüências praticadas por seus dominadores, as quais estão representadas nos quadros pelas  palavras escritas nos letreiros das lojas.

 
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Os temas acima citados podem ser exemplificados conforme abaixo: CONTROLE DO INDIVÍDUO Os órgãos oficiais de informações, inclusive dos países mais "democráticos" como os EUA, tem dossiês completos sobre as ações da maioria dos indivíduos da sociedade, numa forma de "controle invisível". Outro exemplo deste tipo de controle acontece em Miami, onde existem caixas com cameras de circuito interno espalhadas pelas ruas de intenso comércio. Contudo, pelo menos, metade delas encontram-se vazias e as pessoas, por ignorarem tal fato, reagem como se estivessem sendo vigiadas. Pode-se dizer que é o principio da liberdade vigiada. Já as "democracias relativas" do terceiro mundo implantam a delação em todos os níveis sociais, sacrificando até mesmo os inocentes. Poucos tem coragem para ajudar os injustiçados e/ou os parceiros, pois atrás da delação estão a tortura e o terror, cuja função é mudar e controlar a consciência de todos visando a "Paz" social. Estas "democracias" mantém policias do pensamento que, através da propaganda totalitária e outros artifícios, conseguem controlar até mesmo a opinião das pessoas esclarecidas. INVASÃO DA PRIVACIDADE INDIVIDUAL Geralmente, como citei acima, os governos possuem diversas informações sobre o comportamento e vida dos indivíduos "suspeitos" utilizando, entre outros meios, a eletrônica, a informática e a violação de correspondências. ANULAÇÃO DA MEMORIA DOS POVOS Um dos meios para anular a memória de uma nação é através da mudança dos fatos de sua história. Sabe-se da existência de diversas fotos alteradas, tanto pela União Soviética e China como pelos países ocidentais, onde pessoas influentes no regime foram apagadas por artifícios fotográficos por terem se tornado personas non gratas, restando apenas a versão e não o fato. Também altera-se, com freqüência, enciclopédias e livros, anulando ou camuflando os fatos com versões oficiais e jogos de palavras. Hoje em dia, faz-se a história diária já com alterações, noticiando-se fatos sutilmente deformados, de acordo com as intenções oficiais de cada país, ou governo. Se as alterações acima são feitas com facilidade, o que se fará nas bibliotecas eletrônicas das quais estamos tão próximos? MUDANÇA DE SIGNIFICADO DAS PALAVRAS Outra prática muito comum de perversão do poder é a mudança de significado das palavras. Nos regimes ditatoriais, basta batizar de democracia o despotismo para se agir arbitrariamente contra a sociedade. Na Argélia, a palavra "pacificação" significava para os franceses guerra e genocídio de um povo, assim como no Vietnã para os americanos. Independência intelectual na União Soviética significa doença mental e, em certos países não se diz desempregados, mas pessoas em busca de emprego. Quem sabe o que virá depois, pois já temos DESINDEXAÇÃO, EXPURGO, etc.

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NÃO SERES Para nós brasileiros, os não seres poderiam ser identificados como idosos, desempregados, imigrantes sem permissão para trabalhar, retirantes nordestinos, negros de baixa renda, mendigos e tantos outros. Concluída esta série de trabalhos vejo que o tema continua extrapolando meus estudos e, se desdobrando no tempo através de novas idéias e planos...

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Obra do acervo da Pinacoteca de Santo André, prêmio aquisição 12º Salão de Arte Contemporânea de Santo André - 1984

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Walter Miranda
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