Walter Miranda
Artista Plástico

Criticando a crítica

1986
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Publicado no D.O. Leitura (jornal cultural da Imprensa Oficial do Estado) em dezembro/1986

Toda semana lemos nos periódicos críticas sobre artes plásticas. Geralmente, os textos são curtos e superficiais, deixando muito a desejar, ou por falta de espaço cedido pelo periódico ou por incapacidade de quem os escreve, ou, quem sabe, por outros motivos.

Entretanto, parece-me que o crítico, ainda assim, encontra-se em situação privilegiada perante o artista plástico, neste caso mero agente passivo, pois do alto da sua tribuna aponta  para este ou aquele artista elogiando ou destruindo seu esforço e trabalho, como se ele, crítico, tivesse o dom da compreensão, da verdade e do conhecimento infinito na ponta de sua caneta. Isto quando ele se interessa pelo trabalho de algum artista que, neste caso, de acordo com a situação atual, deve se considerar um "privilegiado", não pela crítica em si mas pela menção do seu trabalho.

Esta situação se agrava quando o artista tenta defender o seu trabalho respondendo às críticas e não encontra oportunidade para tanto, por inacessibilidade, falta de espaço e, até mesmo, pela falta de vontade (de quem o critica) em ouvi-lo, numa atitude que demonstra nítida prepotência.

Às vezes, argumenta-se que a obra deve falar por si mesma e que se ela não prende a atenção do observador é porque não transmite sensação alguma e daí não tem valor artístico, pois não atinge o seu objetivo. Ora, isto nada mais é do que simplificar uma relação complexa através de conveniências  próprias, pois nem sempre o observador (inclusive o crítico) está à altura da obra que presencia; haja vista os diversos artistas que não tiveram em vida, suas obras reconhecidas pelo público e pela crítica, mas que após a morte e em época posterior foram justiçados pela história, sendo hoje respeitados em muitos países, quando não no mundo inteiro.

Como, na minha opinião, uma das funções da crítica (senão a única) é estabelecer se o artista atingiu ou não o seu intento, tanto técnica como intelectualmente, torna-se necessário que o artista intermedie a relação obra versus crítico, esclarecendo suas intenções e posições (principalmente se o trabalho for de natureza extremamente intelectual), para que o crítico possa intermediar a relação obras versus público adequadamente, mesmo porque, eu me pergunto: É possível analisar uma obra de arte, de forma adequada usando os nosso conceitos culturais e artísticos sem conhecermos antes o processo criativo do autor? Não creio.

Daí, penso que para haver uma crítica isenta de parcialismo, tendenciosidade, radicalismo ou pieguismo, é preciso que haja contatos entre o crítico e o artista, para que aquele possa de maneira correta situar o artista e seu trabalho no contexto cultural e artístico momentâneo, com conhecimento de causa, ou seja, conhecendo perfeitamente as propostas do artista em questão, já que a arte não é feita de dogmas e regras imutáveis para ser tão simplesmente analisada e decodificada, como tem acontecido ultimamente.

Alguns poderão dizer que isto é inexeqüível devido aos problemas de ordem prática que podem impedir tais contatos. Entretanto, penso que se quisermos fazer algo sério e com elevado nível de qualidade, em qualquer campo profissional, é preciso um planejamento amplo que equacione de maneira no mínimo suficientemente adequada todos os problemas que possam advir. Obviamente, este princípio deve ser utilizado também na crítica para se obter resultados satisfatórios, pois estamos lidando com algo que exige muita responsabilidade dos envolvidos, a saber, a Cultura; mesmo porque, quando se trata de realizar críticas sobre a obra de artistas consagrados, os críticos geralmente se locomovem até eles enfrentando todos os "empecilhos" sem maiores problemas.

Claro que uma crítica inadequada não impedirá o desenvolvimento da carreira de um autêntico artista (mesmo iniciante), mas é certo que poderá prejudicá-la por algum tempo no seu transcurso normal, afastando-o dos espaços expositivos no círculo cultural local, já que devemos levar em consideração o paradoxo de que o artista passa semanas ou meses executando suas obras, atingindo um público relativamente  pequeno (visitantes de galerias ou salões), enquanto o crítico com o trabalho de algumas horas atinge milhares de leitores, influenciando-os de certa forma, já que eles se encontram numa situação simplesmente receptiva, pois não têm contato com a fonte da leitura mas apenas com o intermediário. Também por esta abrangência da crítica é que seus autores deveriam consultar o artista em questão.

Não estou querendo dizer que os críticos devam apenas elogiar os artistas e seus trabalhos, ou paparicá-los como se fossem semideuses, pois sei da existência de artista tão despreparados que suas obras não merecem atenção maior devido à falta de criatividade, talento etc., mas que é preciso acrescentar maior seriedade ao exercício da crítica para que ela adquira maior respeito no meio artístico cultural. Evidentemente que isto não depende apenas dos críticos, mas também dos periódicos que os contratam, pois da maneira como eles têm sido requisitados atualmente, mesmo com as melhores intenções, não conseguirão elevar o padrão do seu trabalho.

Os periódicos não devem contratar críticos apenas para preencher espaços em suas colunas das páginas de lazer, como se arte fosse apenas isto. Também eles devem ter consciência  de que o seu papel na sociedade, enquanto órgão divulgador de informações, notícias, prestação de serviços, etc., é da mais alta relevância e, por isso mesmo, da mais alta responsabilidade.

Voltando aos críticos, é preciso também que haja consciência da parte deles de que por maior capacidade que tenham, não são eles que definem os "ismos" artísticos, já que se houver o surgimento destes, isto deve ocorrer naturalmente através do trabalho de quem cria, desenvolve, executa e expõe obras de arte, ou seja: o artista. Digo isto porque ao ler os textos de alguns críticos tenho a impressão de que há muita pretensão da parte deles, quando deixam "no ar" certas determinações que os artistas deveriam seguir.

Isto me parece uma deturpação do exercício da crítica, pois penso que o crítico tem a função maior de fazer uma análise minuciosa de todos os valores que envolvem uma obra de arte ou um conjunto (exposição) de obras de arte e da fase intelectual pela qual atravessa o artista que as executou, sem exercer influência de espécie alguma. Todavia, se a obra e o artista não convencem, ainda assim, o tempo utilizado para visitas a ateliê e consultas ao artista não terá sido em vão, pois sempre restará a experiência vivida, sem contar que o crítico terá muito mais subsídios para realizar uma crítica (no sentido lato da palavra) profunda, do que quando tenta decifrar as mensagens ou propostas implícitas na obra em questão, sem uma consulta ao criador dela. A vida nos mostra que na maioria das vezes não se pode fazer uma análise minuciosa e coerente de um objeto a distância, mesmo que se possua uma teleobjetiva aproximando sua imagem, pois, às vezes, não basta ver a sua forma para se obter conclusões corretas, sendo necessário pesá-lo, medi-lo etc. Se isto acontece com simples objetos, imagine com a análise de uma obra de arte que envolve conceitos complexos e valores múltiplos.

Muitos poderão discordar do meu pensamento, por ser simplista, e dizer que a função do crítico é julgar a obra de arte em si, sem contato algum com o artista, para evitar envolvimento pessoal, o que poderia impedir a realização de uma crítica justa e isenta. Digo, porém, que ninguém julga corretamente sem antes conhecer todos os detalhes e, nesse caso, para um conhecimento total, volto a insistir, é preciso haver um contato com o autor da obra para que haja uma perfeita posição do crítico frente ao artista e sua produção. E o crítico que, através dos contatos, se envolver, simplesmente estará assinando um atestado de incapacidade, pois estará provando que não tem condições de manter um relacionamento estritamente profissional e de tomar decisões imparciais.

Outro ponto a ser levantado é a falta de visão histórica da maioria dos críticos com relação aos artistas que estão iniciando carreira, pois na maioria das vezes, os trabalhos destes não é levado em consideração devido à sua falta de influência, ou status, no meio profissional. Assim sendo, muitos artistas jovens, de futuro promissor, não obtêm o mínimo espaço possível para divulgar o seu trabalho ou discuti-lo e, consequentemente, muitas obras artísticas de excelente qualidade são relegadas ao acaso (quando não a própria carreira artística do jovem) pela falta de visão, sensibilidade ou interesse da crítica.

Quanto à oportunidade do artista, tanto iniciante como experiente, responder à crítica expondo as suas opiniões após a publicação, penso que o periódico deveria, sempre que cabível e necessário, ceder-lhe espaço (mas não jogá-lo numa simples seção de cartas), criando assim uma espécie de diálogo entre ambos, que seria salutar e positivo, dinamizando a atuação do periódico tanto para o leitor como para o meio artístico, que através das argumentações contrárias poderia formar uma opinião própria embasada em dados mais completos, principalmente se compararem os argumentos com as obras, motivo da celeuma. Mesmo porque até o crítico bem intencionado pode transmitir idéias completamente diferentes das originais, sendo que o artista poderia esclarecer as suas intenções e o periódico cumpriria perfeitamente a função que lhe é devida, aumentando a sua idoneidade perante o público.

É claro que, na manifestação dos artistas, aparecerão os inconformados e os cobertos de razão. No primeiro caso, através da própria argumentação e da observação das obras, o leitor verá claramente a incapacidade técnica, a falta de humildade e coerência do artista. Mas, mesmo assim, ele deve ter o direito de replicar para que haja uma relação de igualdade entre o crítico e o artista, eliminando dessa forma a posição privilegiada daquele. No segundo caso, haverá apenas o cumprimento da justiça.

Haverá também os artistas que não se manifestarão por não darem importância à crítica; por estarem produzindo novas obras, faltando-lhes tempo para tal, ou por motivos diversos. Mas esses serão casos à parte. O importante é a existência do verdadeiro exercício democrático, também nas artes, o que por si só já é altamente positivo.

Finalmente, é preciso deixar claro que, como artista que sou, todas as vezes que tive meus trabalhos mencionados em periódicos, sempre o foi de maneira favorável, o que me deixa isento do inconformismo e parcialismo para escrever estas linhas. Com estes comentários não tenho a intenção de esgotar um assunto tão complexo, mas sim, contribuir modestamente para a sua discussão, pois quem sabe, dessa forma estarei colaborando para o seu enriquecimento, o que poderá tornar, um dia, a crítica mais justa, capaz e coerente dentro das suas funções específicas: analisar, decodificar e comentar obras de arte, neste caso plásticas, levadas a público, tornando-as acessíveis para que ele possa entender melhor a função cultural das Artes no contexto cultural, social, e histórico.

 

Outubro/1986

Walter Miranda

Walter Miranda
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