Walter Miranda
Artista Plástico

Réquiem a duas irmãs gêmeas

2002
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Corria a terça-feira normalmente e eu seguia dando aula de desenho e pintura em meu ateliê. Após a aula, subi para almoçar e resolvi ligar a televisão para ver o noticiário. Na tela era exibida uma cena com efeitos especiais onde uma das torres do World Trade Center era implodida.  Alguns minutos se passaram até eu entender que estava assistindo, ao vivo, a queda da segunda torre. Naquele momento a estupefação e a incredulidade se apossaram de mim e comigo ficaram por alguns dias. Na verdade, me senti meio zumbi durante uns dois dias. Era como se eu estivesse fora da realidade e, por isso, andava tateando à procura dos meus sentidos.

O fato é que Nova Iorque me cativou desde a primeira vez que coloquei o meu rosto em seu colo. Para mim, ela é uma extensão de São Paulo, pois assim como a nossa megalópole, ela está sempre de braços abertos recebendo pessoas de todos os rincões (pelo menos estava).  Entretanto, ela é uma São Paulo melhorada e a grande diferença está na qualidade de vida e no respeito para com a cidade. Você percebe dignidade nos seres que perambulam pelas ruas e isso faz com que você se sinta cúmplice do ambiente urbano e se sinta em casa.

Essa intimidade entre eu e a Big Apple sempre me foi aconchegante. Mesmo estando distante e demorando em revê-la, sempre me senti ao lado dela. Por isso, quando percebi o que estava acontecendo, somente as lágrimas que escorriam de meus olhos poderiam expressar a minha angústia e, dessa forma, somente o silêncio poderia fazer companhia às minhas lágrimas. E assim foi por alguns dias.

Foi uma ferida de difícil cicatrização e quando momentos de angustia ou tristeza me ocorrem, eu pinto. Nesses momentos, a elaboração de uma estratégia lógica, estética e compositiva é a ferramenta que eu uso para transmitir as minhas emoções em meus quadros.

Dessa forma, usei dois quadros para demonstrar dois momentos da Big Apple.

Quadro 1 – Representei a cidade antes e durante o atentado. Nele há uma cena diurna de Nova Iorque pintada em aquarela e outra cena noturna pintada a óleo. Também usei as costumeiras placas de computador, além de incluir uma foto tirada por satélite das duas torres e os celulares que foram de grande importância para as despedidas entre as pessoas que estavam presas nos prédios e seus familiares. Vários outros elementos representam as duas torres de forma analógica. Dois bailarinos se relacionam com um coração e apontam para a estátua da liberdade, que não poderia deixar de ser representada.

Quadro 2 – Representei a cidade, depois do atentado. Em seu topo o Empire State Building e a estátua da Liberdade atuam como testemunhas. Nele há uma cena noturna, pintada a óleo, que mostra dois fachos de luz saindo de onde estavam as torres e se dirigem para o céu. Um trem do metrô, também pintado a óleo, apresenta fotos reais de algumas pessoas que morreram no incidente. Dos detritos que estão na base do quadro surgem as cores do espectro solar que formam a luz branca como um sinal de renascimento. O logo do corpo de bombeiros está inserido em uma peça que mostra todas as direções de atuação dessa heroica corporação. A imagem pintada de uma maçã (símbolo da cidade, Big Apple) se conecta com uma foto de satélite após o incidente.

O casal de bailarinos direciona o olhar do espectador para a cidade mais acima. O resto é para livre interpretação.

Técnica: Óleo + objetos sobre madeira                    Dimensões: 69,5 X 102cm

Ano: 2002       Objetos utilizados: Placas de computadores serradas e esmerilhadas, aparelhos de celulares desmontados, cúpulas de vidro, objetos de cerâmica, papelão calandrado, acrílico etc.

 

Walter Miranda – abril/2002

Walter Miranda
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